quinta-feira, 20 de março de 2008

Alice está sozinha em seu quarto. Com uma gilete ela faz pequenos cortes em seu pulso, sem saber porque. Ela sangra sozinha mas não se deixa dominar. Seus pais a ferem e castigam, sem saber que ela já não pertence mais a esse mundo. Se ninguém a ama, ela não ama ninguém. Mesmo que a amem, ela sempre ama alguém. Alice vive rodeada de pessoas e lembranças. Amigos, conhecidos, estranhos, repulsivos. Em meio a infinitas almas, e mesmo assim eternamente solitária na companhia de sua colcha de retalhos (emocional). Afoga-se atrás de uma tela brilhante e, trancada em seu mundo, tenta seguir o Coelho Branco, o ser ora cruel, ora apaixonado, por vezes indesejado por outros, que a ajuda e ama incondicionalmente. Juntos, eles são uma única forma feliz. Separados, pedaços entregues à destruição.

[...]

Alice está deitada na cama, pensando em sua vida. As perguntas são uma doença terminal que a corrói lentamente; a resposta se torna uma cura inexistente. O Coelho Branco vira, o Coelho Branco modifica, o Coelho Branco não resolve nada e serve apenas como instrumento de fuga da realidade. Uma canção problemática. Um canivete ambulante que corta a alma e transmuta a dor. Alice não tem lugar no mundo nem peso na história (ainda), e é por este motivo que toma soníferos e beija a vodca, para tentar compensar o que não tem e esperar que as garras do esquecimento sejam generosas em arranhá-la essa noite. Alice quer uma casa, mas não querem dar a ela. Alice chora sem que ninguém a veja, e chora mais quando se lembra de que chorar é inútil. O Chapeleiro Insano disse uma vez que ela era feia, louca e fraca. Mas ele tinha apenas inveja, porque tinha também consciência de que jamais seria como ela. Porque Alice é especial. Porque Alice é foda. Porque ela é o que ninguém mais é.

[...]

Alice ainda tem medo, mas ela entende que o Coelho Branco não irá abandoná-la. Em um determinado momento, algo tem que dar certo e eles poderão parar de correr. Alice precisa fazer alguma coisa, ainda que não saiba o que. Ela segura a mão do Coelho, para que ele a carregue até sua toca. Ele não sabe o que está fazendo, mas isso não importa agora. Ele atira em sua perna para pintar um belíssimo quadro com sangue. Alice e o Coelho Branco já estão descendo pelo buraco, correndo pela escuridão, distantes de tudo.

Caindo e amando, morrendo um dia de cada vez.

Y